O cuidado em liberdade transforma trajetórias marcadas pela exclusão em histórias de autonomia e afeto. A trajetória de Edson Antunes simboliza os avanços da reforma psiquiátrica e a importância do cuidado em liberdade que hoje marcam o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio. Internado pela primeira vez ainda na infância, Edson encontra hoje no Instituto Municipal Nise da Silveira, no Engenho de Dentro, uma realidade completamente diferente do passado marcado por sofrimento psíquico, alcoolismo precoce e longos períodos de internação. Sua história mostra como a arte e o acolhimento podem transformar trajetórias marcadas pela exclusão em caminhos de autonomia, pertencimento e dignidade.
Anos atrás, Edson chegou ao Instituto Municipal Nise da Silveira ainda muito jovem, em meio a crises pelo consumo de álcool e intenso sofrimento emocional. Entre idas e vindas ao longo da vida, passou por momentos graves durante a internação. Hoje ao revisitar essa memória, afirma que o cuidado foi decisivo para que pudesse sobreviver e encontrar novos caminhos. O primeiro contato com a pintura aconteceu quando profissionais do CAPS Raul Seixas o incentivaram a expressar emoções no papel. A partir dali, a arte se tornou não apenas a linguagem artística que caracteriza suas obras, mas também uma estratégia de enfrentamento das suas questões psicológicas.
— Tudo que me fazia mal eu passei para a tela. Quando você enxerga aquilo que te incomoda, encontra um jeito de batalhar contra isso. A arteterapia não cura, mas dá direção. Ela ensina a sobreviver ao que surge dentro da gente. Minhas verdadeiras obras de arte hoje estão em casa: minha esposa e meus dois filhos. Eles me ensinam todo dia o que é amor. Mas hoje aqui no Nise da Silveira encontrei uma família, onde sou tratado como ser humano —, conta Edson.
Aos 63 anos, casado e pai de dois filhos, Edson é artista e tem seu próprio ateliê no Espaço Travessia, projeto do Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde. O espaço, que completa 10 anos em 2026, promove exposições de artistas periféricos e oferece oficinas abertas à população em geral. No local, ele trabalha produzindo obras, estabelecendo laços, transmitindo conhecimentos e construindo redes de afeto e convivência. O artista também participa dos ateliês terapêuticos do Museu de Imagens do Inconsciente, onde realiza trabalhos em telas e também constrói artes em cerâmica, explorando novos horizontes. As iniciativas integram a proposta de cuidado humanizado em saúde mental, utilizando a arte, a cultura e a convivência como ferramentas de inclusão social, fortalecimento de vínculos e reinserção na sociedade.
A arte não apenas revelou um talento, mas transformou profundamente a vida de Edson, que se tornou pintor e já participou de exposições, projetos culturais e ações educativas. Suas obras já foram exibidas no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, e na Escola de Belas Artes de Verona, na Itália, além de mostras em instituições culturais e espaços públicos brasileiros. Edson define a própria felicidade a partir da família construída após anos de instabilidade. Casado há oito anos, ele afirma que a esposa e os filhos são sua maior realização e a relação com as crianças ultrapassa o ambiente de casa. Inspirado pela própria história, ele desenvolve atividades de arte em escolas, projetos sociais e instituições culturais, utilizando o desenho como ferramenta de escuta e expressão emocional.
A trajetória de Edson atravessa dois momentos históricos da Saúde Mental: o modelo manicomial e a sua transição a partir da reforma psiquiátrica. Ele viveu a época das internações psiquiátricas prolongadas e depois o cuidado em liberdade, no território – a partir da atenção psicossocial – que substituiu o hospital psiquiátrico. Atualmente, Edson reconhece o Instituto Municipal Nise da Silveira não mais como um lugar de isolamento, mas de pertencimento. Para ele, o cuidado requer a participação ativa do próprio indivíduo no tratamento.
A história deste artista revela como a arte como forma de cuidado pode transformar trajetórias marcadas por exclusão em caminhos de criação, trabalho e afeto. De ex-interno manicomial a artista e pai dedicado, sua jornada é marcada pela seguinte frase: “Eu canso, mas não desisto de ser feliz”.
— Aqui era um local de muito sofrimento, onde várias pessoas foram internadas ainda na infância. Os efeitos disso para vida dessas pessoas são inúmeros. Revisitar essa história é fundamental para que possamos refletir sobre outras possibilidades de cuidado, baseadas no respeito, na dignidade, na cidadania e no cuidado em liberdade. Um cuidado que reconheça a individualidade, a história e a humanidade de cada sujeito —, afirma a diretora do Instituto Nise da Silveira, Erika Pontes.
Memorial da Loucura
O Instituto Municipal Nise da Silveira se consolidou como referência na promoção da saúde mental no município do Rio por meio da arte, cultura, esporte, lazer e oficinas de geração de renda e trabalho. No local também está localizado o tradicional bloco de carnaval Loucura Suburbana, que promove oficinas de bateria, roda de samba, entre outras, como ferramentas de convivência, expressão cultural e inclusão social. Além disso, a unidade hoje abriga um importante acervo histórico aberto ao público, composto por documentos, livros, prontuários, móveis e obras artísticas que retratam a história da psiquiatria no Brasil.
Entre memórias e recomeços, o Memorial da Loucura expõe a trajetória da saúde mental desde os tempos marcados pelos manicômios até o avanço da reforma psiquiátrica e a desinstitucionalização dos pacientes. Por meio de objetos, documentos, relatos e experiências imersivas, o acervo revela as práticas da psiquiatria até a chegada das mudanças que começaram a ser implantadas pela médica psiquiatra Nise da Silveira, que defendia o tratamento humanizado e o cuidado em liberdade das pessoas com transtornos mentais.
O Memorial funciona nas instalações originais do antigo manicômio, hoje transformadas em um espaço de exposição artística e preservação histórica. Ao fim da visita, o público consegue compreender a importância da reforma psiquiátrica e do cuidado baseado no acolhimento, na autonomia e na reinserção social dos usuários. O espaço também abriga o Bistrô QuiDeliche e uma lojinha com produtos confeccionados pelos próprios usuários, iniciativas que integram o Polo Ciclos de Geração de Renda e Trabalho e contribuem para a inclusão social e a inserção dessas pessoas no mercado de trabalho. A visitação é aberta ao público, de terça à sábado, das 9h às 16h e às segundas-feira das 13h às 16h.
Festival Nós na Luta
Para marcar a data da Luta Antimanicomial, o Instituto Municipal Nise da Silveira vai realizar entre os dias 20 e 22 de maio a quarta edição do evento anual “Festival Nós na Luta”. A programação reúne oficinas, atividades culturais, rodas de conversa, apresentações e mesa de debate, promovendo reflexões sobre a história da Saúde Mental no Brasil e fortalecendo a defesa de um cuidado humano, digno e em liberdade.
Neste ano, o festival também celebra os 25 anos da Lei 10.216/2001, marco fundamental da reforma psiquiátrica brasileira. A legislação redireciona o modelo de atenção à saúde mental, substituindo a lógica manicomial por uma rede de cuidado baseada em direitos, acolhimento e cidadania.
O 18 de maio é uma data simbólica na história da Saúde Mental brasileira, que representa a mobilização em defesa do fim das práticas de exclusão, violência e isolamento que marcaram o modelo manicomial no país. A data reafirma o direito das pessoas em sofrimento psíquico ao cuidado em liberdade, à convivência em comunidade e à dignidade humana.
Programação do festival
19 de maio
9h30 às 11h30
Aula Magna com Paulo Amarante
Local: Auditório Cetape
14h às 17h
Visita Guiada
Local: Cetape
20 de maio
9h às 9h30
Contação de histórias
Local: Memorial da Loucura
9h30 às 12h
Planetário móvel e lançamento de foguetes
Local: Ginásio do Polo Esportivo
10h às 12h
Biodanza (PICS)
Local: Bosque Dona Ivone Lara
13h às 14h
“Ambulatório em: Retratos – Contando Nossas Histórias”
Local: Espaço Travessia
14h às 14h20
Teatro “Os Inumeráveis: O amor maior ou poderia dizer a história Do Mar Sem Ondas”
Local: Espaço Travessia
14h20 às 15h
Ballet Osun
Local: Espaço Travessia
15h às 16h
Roda de conversa com os artistas
Local: Espaço Travessia
21 de maio
9h às 18h
“Um dia de Poesia: 10 anos de Travessia”
Programação com shows, oficinas, teatro, música, cordel, lançamento de livros, sarau e outras atividades em comemoração aos 10 anos do Espaço Travessia.
Local: Espaço Travessia
22 de maio
9h às 12h
Mesa de debate “Lei 10.216/2001: 25 anos de uma lei viva”
Local: Auditório Cetape
14h às 17h
Encontro de Rodas de Samba da Saúde Mental
Loucura Suburbana convida: CAPSad Paulo da Portela, CAPS Dircinha e Linda Batista, CAPS Rubens Corrêa e CAPSad Dona Ivone Lara
Local: Memorial da Loucura
25 de maio
9h às 17h
Abertura do VI Campeonato de Futebol da RAPS Carioca, organizado pelo Centro de Convivência Trilhos do Engenho
Local: Vila Olímpica do Encantado
